Doce indiferença

Percebo que, finalmente, consegui chegar num bom estágio de percepção das coisas, pessoas e situações, e das movimentações de cada item pelo universo. Ser diferente para mim agora está na indiferença. Talvez seja a máxima de um corpo e mente esgotados, mas nunca foi tão valiosa pra mim uma sensação. Manter a boca fechada na vida e no trabalho nunca me fez tão feliz. Depois de uma incansável dosagem extra de carga emocional, como heroína diária na veia, nada melhor do que não me importar tanto com nada e com ninguém. Menos é mais, definitivamente, e se a vida vai seguir com histeria ou sem – a gente decide.

Se isso era um motivo desgastador dos ossos, agora já não é mais. E faz um bem danado para o corpo. Nessa dosagem de expectativas e relações ganho pontos em sustentabilidade – o meu triple bottom line está se equilibrando entre a economia (o bolso, apesar de faltar um tanto para esse nirvana), o que é bom para a sociedade (pessoas) e para o planeta (eu).

Depois de me sentir uma criança abandonada em um ponto de ônibus, chegou a mágica sensação de liberdade. É muito bom não me preocupar de forma exagerada com o amanhã, nem como ele vai chegar, nem com o caminho que devo seguir e muito menos com o que vão pensar. Quebrar minha rotina está sendo fundamental já que me acostumei com muita coisa previsível. Apenas e tão somente falar o suficiente, ler o que me interessa, ouvir seletivamente aquilo que vai render em aprendizado, calar, calar e calar e ignorar todo o resto que é fruto do vício de almas doentes. Não, não quero almas doentes perto de mim. Minha alma não é doente e jamais será.

Minha paz é minha e não pode ser interferida por sugestões terceiras de como é bom trocar o sapato azul pelo amarelo. Já ouvi tanta bobagem nesta vida e acreditei em boa parte delas, que desperdício! Hoje respondo: “use você a cor que desejar, sem culpa, e me deixe aqui”.

Não caio mais nessa armadilha de gente mimada que não respeita o jeito de ser do outro e que precisa “transferir” para camuflar suas lamúrias.  Se você quer ser mãe, seja! Só não venha querer me convencer que isso será bom para mim. Eu não quero ser mãe e não quero conselhos. Só eu sei, de verdade, o que é melhor para minha pele. Parece arrogância, mas se a reflexão for profunda, veremos que não é. Isso é liberdade total!

É bom não ter que completar a frase vez ou outra.

Já é muito difícil escolher diariamente o que é bom pra gente, não? Ainda ter que carregar sugestões para os outros é peso extra que nem nos pertence. Dá dor nas costas. Vamos deixar cada um na sua vibe a ajudar quando for extremamente necessário. Quem precisa de ajuda vai pedir de alguma forma. Já a natureza se encarrega do resto.

Basta um adjetivo para viver

Das duas, uma: ou uma pessoa é boba ou é boa. Pensando nisso decidi hoje, ao me levantar da cama (e antes mesmo de escovar os dentes), que não dá para ser os dois adjetivos. Só um e ponto.

E como sempre a opção é pela bondade. Errando muitas vezes. Acertando muitas também. E não sendo boa também - porque uma hora e outra, configura-se em um ato bravio de bondade. E, mesmo achando que algumas pessoas não merecem a nossa preocupação, continuarei a ser a mesma pessoa – preocupada, porém, agora, em doses homeopáticas. Errando e acertando, muitas e muitas vezes. Talvez, somente, com uma pseudo-preocupação – aquela de faz de conta, que deixa a maioria das pessoas felizes (e isso faz com que o saco fique um pouco mais vazio).

“É vida que segue…”

As pessoas interessantes continuarão interessantes. As brochantes não tem jeito. Serão apenas uma brochada atrás de outra. Não há muito o que fazer. A leveza só é para quem de direito. Não é para todos. O que a gente não pode é deixar um qualquer alguém afetar o nosso dia por conta de uma bobagem. Tem gente que muitas vezes quer te ver pirando e cheia de culpa por existir (e muita gente se alimenta disso, pobres coitados).

Um mundinho como o de hoje tem de tudo. Você pode até pirar por causa dos outros, desde que seja muito relevante e que recupere a insanidade 15 minutos depois. Nenhum minuto a mais, ok?

É importante ter discernimento, lamentar profundamente as irresponsabilidades frente aos sentimentos, perdoar ou se afastar (tem vez que algo se quebra e não dá para colar os cacos). Infelizmente (e que bom saber disso) é necessário colocar as pessoas em seus lugares, divididas por grau de importância: passantes, amigos, irmãos, colegas, etc. Deixar isso pra lá é puramente um desperdício de energia (já ouviu algum ser dizer que com foco tudo é melhor na fucking vida?). Até queremos que todos sejam importantes, mas é errada essa ideia que no coração cabe todo mundo – nem no de mãe. Isso não acontece, de fato.

Foco. Tenha foco.

Também é legal quando não nos damos tanta importãncia. Isso realmente evita uma série de desencontros e chateações. Tirar essa barreira deixa a gente com a orelha mais aberta para ouvir as pessoas e os olhos gigantes para perceber as belezas que rondam a cidade – e são muitas.

Complexo, não? Mas é porque estou falando para mim mesma, na tentativa de ensinar para a minha alma que nem todo conflito dá para ser resolvido, que tem gente que não passa de colega/conhecido, que agradar todo mundo é uma verdadeira piada e que a palavra “foda-se” é mais do que um palavrão e pode ser considerado um mantra divino.

Tem hora que o problema não é você e sim equacionado pelo que está dentro do outro. A chamada ”transferência” é ato corriqueiro do ser humano pra tirar sua própria culpa das costas. E isso a gente tem que perceber de cara e ignorar, sem ciladas mentais. Deixa estar porque tudo fica em seu devido lugar.

Só por hoje…

A melhor frase de todos os tempos começa uma simples afirmação: “só por hoje’. Esse início de mantra, que já considero parte do meu dia, pode se referir à mil coisas.

Só por hoje tenho que aguentar determinada pessoa. Só por hoje sinto tristeza. Só por hoje trabalho na minha área. Só por hoje estou doente. Só por hoje moro nesta cidade. Só por hoje….só por hoje…oferece possibilidades de amplitude mental para não “dormirmos” com pessoas e situações que comprometem nossa paz e a serenidade.

Só por hoje tal coisa acontece. Amanhã é outro dia. Outra vibração. Outra história.

Eu explico!

Não há nada mais irritante do que um homem tipicamente paulistano. E também os que não são e aderem o mesmo modelinho terno azul - cabelo pra trás – sucesso – dinheiro. Eu não su-por-to! Primeiro porque gosto de barba e homem com cara de macho. Segundo porque eu não gosto dessa fantasia careta a la Wall Street. Antes todos tivessem o bolso cheio.

É irritante de uma forma que eu não consigo explicar. As camisas são todas iguais. Os ternos são todos iguais. Até o perfume arrisco dizer que é igual – se não é Hugo Boss será “something boss”. E todos querem ser boss! E todos querem um carro, uma casa e uma mulher idiota para recebê-los depois da foda com a secretária ou com a colega de baia.

É radical, mas é um gosto só meu. Me deixa!

Dolce far niente

Palatino, Aventino, Capitólio, Quirinal, Viminal, Esquilino e Célio bem poderiam ser os nomes dos meus sete filhos. Só que não. São as colinas que abraçam Roma, a chamada cidade eterna. Eu gostaria de dizer que não estou ansiosa, mas seria de uma incrível hipocrisia. Minha expectativa é grande já que ando sem lenço e documento em São Paulo. Preciso de um ar diferente, vozes diferentes e um idioma diferente. Eu até permitiria ser criada por uma loba na tentativa de me fazer encaixar definitivamente naquele lugar. Desejo Roma com paixão, ardência, quase como um delírio de volúpia. Meu coração já dói antes da primeira pisada.

Preguiça avassaladora

Roberto Alvim, dramaturgo e diretor de teatro,  escreveu em sua página no Facebook: “escrever uma obra dentro de um gênero pré-estabelecido (comédia, drama, etc…) é de uma preguiça avassaladora…”

Assim como para as artes, acho essa observação também pertinente quando falamos de comportamento, pessoas, tribos e afins. É detestável ser definida pela roupa que eu visto, pela música que eu escuto ou por um comportamento. Apesar disso tudo ser comunicação – de uma forma ou de outra. Colocar minha vida em gênero é impossível. É de uma preguiça avassaladora alguém pré-definir o gênero da sua experiência. É preguiçoso. Pobre.

Detesto gêneros de qualquer espécie. Nas artes e na vida.

Uma taça de vinho e um novo mundo

7:35. Grandes olhos abertos. Chove sem parar. Ouço as gotas de água em sinfonia na telha. Casa escura. Uma coisa de preguiça.

Desço as escadas com sede. A geladeira aberta me oferece possibilidades. Alho, cebola, escarola, batata e bife que vai dar de rolê. Passo um café tinta. Amargo bom, quente, que desce a garganta. Começo os preparativos. Fogo alto, alho picado com cebola, pimentões amarelos bem cortadinhos. Cheiro gostoso. Batata descascada cozinha. Arroz no fogo com escarola cozida. Batata segue para o forninho com alhos inteiros e azeite com um tanto de salsinha jogada. Calor, vapor de cozinha. Cheiro que invade a janela do lado. Carne espetada na panela, na pressão, por uma hora inteirinha. Vinho geladinho aberto. Uma taça. Duas taças. Mais meia.

Nem me atento ao horário cedo. Comi com as galinhas. Bife à rolê com molho grosso de alho, cebola, pimentão amarelo e pitadas de flor de sal, cominho, noz moscada, salsinha, louro, outros temperos que nem sei e tomate cortado grosseiramente. No prato mais uma batata corada com alho inteiro de forno, molinho. Escarola cozida e um pouquinho de arroz branco novo. Vinho. Tudo às 11h da manhã. Felicidade é um minutinho corrido.